O valor das suas próprias palavras

“Temos depois que as cartas de um homem, sendo o produto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua filosofia – que é apenas a criação impessoal do seu espírito.” (in A Correspondência de Fradique Mendes)

domingo, 21 de agosto de 2016

Eça de Queiroz - O que pede o compromisso do casamento

A PAIXÃO, O NAMORO, E O CASAMENTO
Casamento. 03. - O que pede o compromisso do casamento.
«Duas almas que se juntam para sempre, e que têm individualidades diferentes, não podem jamais tornar a ter interesses diferentes». (1, carta de 12Out1885)
Uma aproximação ao casamento de Eça e Emília.
Como seriam as pessoas desse tempo?...
Um casamento nas Lapas, Torres Novas , em 28Set1898,
Noivos à saída da Igreja de N.ª Sr.ª da Graça.
Mãe e irmã mais nova compõem o véu da noiva.
A filha mais velha de Eça de Queiroz e Emília Castro, Maria, com a ajuda do irmão António, publica em 1949, em reacção a tanto que se dissera - distorcidamente e erradamente, na opinião dos filhos - cerca de 4 anos antes, por ocasião da celebração do centenário do nascimento do pai, e com o objectivo de esclarecer e corrigir o que chegam a claramente designar como «tanta infâmia», algumas cartas trocadas entre os pais, para mostrar «um grande coração [de Eça de Queiroz] , a família e os amigos e ainda toda a pobreza e a miséria que lhe bateu à porta.» (1)
Trata-se de uma publicação deliciosa, "isenta" como são isentas as apreciações carinhosas, feitas com base na memória, de filhos que muito amaram os seus pais. Maria tinha 13 anos quando a levaram junto do leito onde viu o pai pela última vez, já sabedora do que lhe tinha acontecido. A mãe Emília viveu até 1934. Assim, passaram mais de 40 anos sobre a morte do pai, e mais de 10 no que diz respeito à mãe, quando as cartas são publicadas - 40 anos, a distância temporal entre a intensidade emocional de uma jovem adolescente e uma senhora que muito, entretanto, amadureceu.
Com os olhos de coruja que a tradição entrega às boas mães, Maria comenta, então, o pensamento do pai da seguinte maneira:
«Reconhece a cada um o direito de ter gostos diversos, "individualidades diferentes" - mas o que nunca mais poderão ter são "interesses diferentes".» (2)
 O que pede, na verdade, o compromisso do casamento? O casamento é sempre um contrato. Um contrato com disposições que estabelecem direitos e deveres.
Noutras entradas desta publicação apresento outros pensamentos de Eça sobre o casamento, dele continuando a falar a Emília, mas também aos amigos. O de agora refere-se ao momento que sempre deve acontecer, seja no século XIX, XX ou XXI - o esclarecimento das condições de contrato entre as partes contratantes.
Bem, este escrito não é um ensaio sobre a instituição do casamento, é só sobre o casamento de Eça de Queiroz. Essencialmente, é um casamento feito segundo os cânones, à época, da Igreja Católica. O casamento terá lugar no dia 10 de Fevereiro de 1886, no oratório do solar de Santo Ovídeo, pertença dos Condes de Resende. Que disseram eles em voz alta, perante o testemunho da família e convidados presentes, e sob orientação do padre celebrante? Disseram o mesmo que dizem os casais nas mesmas católicas igrejas?
O que quereria mesmo dizer, nas palavras de Eça, nunca mais individualidades diferentes ter interesses diferentes? E o que quererá isso dizer nos dias de hoje?
Numa canção de 1990, que continua a ser muito trauteada, Rui Veloso canta estes versos de Carlos Tê:
«Mas tu não ficaste, nem meia hora.
Não fizeste um esforço para gostar e foste embora.
Contigo aprendi uma grande lição.
Não se ama alguém que não ouve a mesma canção.»
Que terão estes versos a ver com a afirmação que, a quente, em pleno período de noivado, o maduro senhor faz à nitidamente mais jovem senhora?
Entretanto, oficialmente, à beira do altar, o que as testemunhas do compromisso de união ouvem é o seguinte:
«Eu (dizer o nome do noivo)
Prometo a ti, (dizer o nome da niova)
Ser-te fiel até ao fim
Amar-te como a mim
E respeitar-te assim
Na alegria e na tristeza
Na riqueza e pobreza
Na saúde e na doença
Todos os dias da nossa vida.»
Foram estas palavras que as testemunhas ouviram Eça declarar à pessoa com quem publicamente contraía matrimónio na cerimónia do pequeno templo religioso? Como casa - sim, como casa - uma declaração assim com as diferenças tão claramente vincadas na afirmação do escritor noivo?
Talvez este apontamento devesse acabar por aqui, para que o foco de reflexão a que ele quer levar não se perca; mas não resisto a chamar ainda a atenção para um aspecto a que sou compelido a pensar em resultado dada sua tão difícil e preocupante presença nas circunstâncias actuais dos confrontos entre culturas e religiões.
Numa carta que escreve ao «amigo sublimemente indiscreto», em 30 de Agosto de 1885, de Bristol, Eça de Queiroz expressa-se assim:
«aí vai a carta [para a mãe de Emília e do próprio amigo, o conde de Resende]; e ela tem de resto a grande, grandíssima vantagem de legitimar desde já as coisas, torná-las oficiais, e permitir portanto que tua irmã e eu nos escrevamos de vez em quando pour nous envoyer un petit salut d'amitié. Porque seria fantástico que permanecêssemos todo este tempo num silêncio solene - como se faz em países muçulmanos; e ainda em países muçulmanos, os fiancés correspondem-se por meio de ramos de flores.» (4, carta de 30Ago1885) 
 De Agosto a Outubro, da escrita ao amigo indiscreto à noiva, o noivo caminha do imaginado silêncio contemplativo para o ansioso e reclamativo protesto de notícias constantes, diárias. No rol das coisas reclamadas, o noivo não pede apenas palavras amorosas e confissão de sonhos:
«Ontem o papel acabou-se-me materialmente - quando eu lhe ia falar de coisas práticas. Porque, é verdade, nunca ainda conversámos sobre coisas práticas. Eu chamo coisas práticas certos detalhes como a época do nosso casamento, etc.» (5, carta de 14Out1885)
Palavras-chave: casamento, marriage, noivado, contrato de casamento, marriage contract
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(1) A. Campos Matos, Eça de Queiroz. Correspondência. Vol. I. Lisboa, Caminho, 2008, p. 418.
(2) Eça de Queiroz, Eça de Queiroz entre os seus, apresentado por sua filha, Cartas Íntimas, Lisboa, Caminho, 2012, p. 23.
(3) A. Campos Matos, Eça de Queiroz, uma Biografia, V Cronologia, Porto, Edições Afrontamento, 2009.
(4) A. Campos Matos, Eça de Queiroz. Correspondência. Vol. I. Lisboa, Caminho, 2008, p. 393.
(5) A. Campos Matos, Eça de Queiroz. Correspondência. Vol. I. Lisboa, Caminho, 2008, p. 420.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AFECTOS - A amizade, um sentimento especialmente saboroso. 01.

AFECTOS
A amizade, um sentimento especialmente saboroso. 01.
«bavarder com aqueles por quem se tem amizade é o maior lucro que da amizade se tira». (19, p. 77) (1)
Bavarder quer dizer conversar, falar, bater um papo - descomprometidamente, o que vier ao fio livre
Jaime Batalha Reis
do pensamento; e abundantemente, é falar muito.
Eça regista assim esta ideia na fase em que ansiosamente procura intensificar a troca de cartas com a sua muito recente noiva, logo após receber do Porto - ele está em Londres - o consentimento da Condessa de Resende, mãe de Emília, para que noivassem, senhora que explicitamente reconhecia:
«as boas qualidades e merecimento de V. Ex.ª, vendo além disso minha filha muito satisfeita [...] não posso deixar de o aprovar, esperando que Deus os abençoará.» (2)
O valor de "o maior lucro" para a conversa descomprometia e abundante com os amigos não é uma atribuição vã que Eça de Queiroz declame na vertigem poética de noivo apaixonado.
Não esqueçamos que ele é um noivo tardio, senhor de sentimentos amadurecidos na experiência pessoal e na reflexão passada aos seus escritos.
Um dos seus mais queridos, profundos e leais amigos, Jaime Batalha Reis, na Introdução que escreve, em 1903, às "Prosas Bárbaras", conta-nos um muito significativo episódio do bavarder em que Eça tanto se empenhava e com que se deliciava, teria Eça 21 ou 22 anos; Jaime, 19 ou 20; e Salomão, 24 ou 25:
«Uma noite, no Verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, o Salomão Saragga e eu, fomos de passeio, conversando, até Belém. A noite estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia. Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos à praia da Torre. Quase varado na areia, havia um barco. Metemo-nos la dentro. A maré enchente fez-nos flutuar. Aí continuámos a nossa conversação até que o dia apareceu e o sol se levantou por detrás da casaria e dos altos de Lisboa. Desembarcámos então e dirigimo-nos para Belém, com fome, em busca de uma Taberna ou Restaurante. Queríamos almoçar ali mesmo, continuando, à beira do rio, a nossa discussão.»
Eça de Queiróz partira, em final de Dezembro de 1866 para Évora, onde foi dirigir o jornal de oposição ao Governo, o "Distrito de Évora" e regressara a Lisboa, a casa dos pais, em 2 de Agosto de 1867. Em 20 de Dezembro o Diário de Notícias publica o anúncio seguinte: «O distinto académico o Sr. Eça de Queiroz  vai estabelecer-se como advogado na Praça D. Pedro, 26, 4.º andar [em Lisboa]» (3).
De que falariam eles, abundantemente, nas suas conversas?... De que falam os amigos?...
Concretamente, de que falaram os três embarcados naquela noite toda?...
Desta e de outras conversas, Jaime Batalha Reis confessa, na Introdução, cerca de 3 anos após a morte do amigo, que lamenta não ter guardado registo do tanto que escreviam nos papéis e nas paredes nestes encontros. Especificamente do encontro de "marinheiros", felizmente, consegue reproduzir de memória o problema que criaram enquanto matavam a fome. O Malheiro de que falam é o amigo, coitado, à porta de quem bateram por volta das cinco horas da manhã a pedir que lhes desenrascasse dinheiro para poderem ir matar a fome; ele deu-lhes três moedas de cinco tostões.
O enunciado do problema:
Cristo deu-nos o amor,
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos três pintos:
Qual deles deu a verdade?
Diz ainda Batalha Reis, a fechar a memória deste episódio escreve:
«Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em quatro décimas, cantadas ali logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a ouvir-se gemer na cozinha do rés-do-chão. Perderam-se estas décimas que com efeito sobrescritámos para o Lourenço Malheiro, e duas das quais, escritas pelo Eça de Queiroz, eram de uma graça cintilante.»

Palavras-chave: amizade, friendship, amigos, friends, conversar, talk, Jaime Batalha Reis
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(1) A. Campos Matos, Eça de Queiroz. Correspondência. Vol. I. Lisboa, Caminho, 2008, p. 390.
(2) Eça de Queiroz, "Eça de Queiroz entre os seus, apresentado por sua filha, Cartas Íntimas", Lisboa, Caminho, 2012, p. 23.
(3) A. Campos Matos, "Eça de Queiroz, uma Biografia", V Cronologia, Porto, Edições Afrontamento, 2009.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Desejos Pessoais versus Convenções Sociais: p'ra que lado é que me viro, p'ra que lado?

TORNAR-SE PESSOA.
Controlo dos impulsos e aceitação das convenções sociais. 01.
«O coração tem os seus élans, mas a vida tem também os seus cerimoniais. Que devo fazer?" (Eça de Queiroz, Carta a Manuel de Castro, Conde de Resende) (1)
Quando assim escreve, quando assim sente, o apaixonado Eça de Queiroz é praticamente quarentão,
Emília de Castro Resende antes do
 seu casamento com Eça de Queiroz
faltam-lhe apenas 4 meses para lá chegar. E já será depois de entrar nos "entas" que ele casará com Emília de Castro. A carta é dirigida ao irmão da apaixonada, numa troca de correspondência que, segundo Maria d'Eça de Queiroz, filha do escritor, terá sido da iniciativa do conde de Resende. Conhece-se também a carta que já no dia 28 de Julho Eça enviara, provavelmente como primeira resposta, ao seu "amigo indiscreto".
Aos 40 anos, Eça de Queiroz tem já a mente disciplinada pela exigência e esforço da escrita. Humanamente, tem a experiência de um número considerável de relacionamentos amorosos, até com duas irmãs americanas - em simultâneo!; e, naturalmente, conhece também, a experiência amorosa de muitos dos seus amigos. Mas...
Mas mesmo assim, na mesma carta, Eça escreve duas vezes a mesma pergunta - «Que devo fazer?»; e ainda mais 3 outras perguntas reflectindo ansiosas dúvidas.
Mas como fazer os sujeitos com metade da sua idade, na pujança das exigência biológicas e hormonais, que são, afinal, os habituais protagonistas dos afectos, impulsos e atracções amorosas assim tão intensas?
Ele próprio, o escritor, deixa-nos uma muito interessante pista para a resposta à pertinente pergunta.
Na verdade, na mesma carta ao querido amigo, irmão da apaixonada, logo a seguir, Eça escreve:
«Tu que foste o amigo sublimemente indiscreto - sê agora o conselheiro generosamente avisado.»
Quer dizer, o apaixonado declara que precisa de um amigo, mostra confiança e antecipa gratidão.
Ele reconhece o impulso que o motiva
«Se eu pudesse escutar só o desejo do meu coração - partia para aí amanhã.»
e também, implicitamente, que precisa de controlar tal impulso.
Eça está em Londres, que nunca terá sentido tão longe da Granja, em Portugal, quanto naquele momento!
Parece, pois, que a distância e a idade são determinantes para que o ansioso enamorado consiga ter mão nos impulsos e aceite percorrer as etapas das convenções sociais.

Palavras-chave: impulsos, afectos, paixão, convenções sociais, socialização, amigos
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(1) A. Campos Matos, Eça de Queiroz. Correspondência. Vol. I. Lisboa, Caminho, 2008, p. 390.

sábado, 13 de agosto de 2016

OS COMPORTAMENTOS - O riso 01.

OS COMPORTAMENTOS
O riso 01.
«O riso é a mais antiga e ainda mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta duma instituição, e a instituição alui-se; é a Bíblia que no-lo ensina sob a alegoria, geralmente estimada, das trombetas de Josué, em torno de Jericó. Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe um chapéu de bicos de papel: bate-se o tambor e chama-se o público.» (1, p. 168)
Ramalho Ortigão, por Felizardo
Não será motivo de polémica discussão dizer-se que rir faz bem à saúde, e Eça de Queiroz também escreveu sobre essa espécie de riso. Onde há riso há alegria, há satisfação, há bem-estar.
As crianças sabem por instinto que, quando os pais descobrem as marotices que elas fazem, um sorriso carinhoso tem boas hipóteses de aplacar o aborrecimento ou a zanga dos pais; e se as crianças conseguirem fazer os pais rirem-se, melhor ainda. Sobre esta força do riso falo noutro escrito de Eça que junto a este está.
Há um poeta ainda recente que canta que a cantiga é uma arma; mais velho, bem mais velho, o escritor diz-nos praticamente o mesmo acerca do riso. O comportamento do riso tem uma relação muito íntima com o exercício da inteligência. É por isso que Eça diz que o riso é terrível - é porque é eficaz, atinge o âmago do entendimento, é convincente. Atinge sem fazer uso de formas de crítica mais rudes, mais próximas da agressão directa, que tendem a despoletar reacções de defesa, bastante menos pensadas, mais próximas da reacção agressiva directa, do tipo "olho por olho, dente por dente", e tomadas logo como reacções de legítima defesa. Quer dizer, o riso terá mais chances de inibir a reacção agressiva da pessoa visada.
Para Eça, o riso que neste trecho ele descreve - a receita, como ele diz - é uma forma simples de riso, de fazer rir. Na continuação da sua escrita ele, a propósito de Ramalho Ortigão, vai discorrer sobre o riso como arma de intervenção e crítica social e política, em formas cada vez mais contundentes. Assume que concorda com um “grande pintor de Paris”, que diz que a multidão vê falso, e que o que Ramalho Ortigão escrevia nas Farpas, com os processos do riso, “era obrigar a multidão a ver verdadeiro”. (1, p. 169)
Não quero deixar de assinalar aqui que, lá bem para a frente, no longo elogio a Ramalho Ortigão a que fui buscar o excerto-gatilho deste discorrer, Eça explicita matizes interessantes acerca do riso, que valerá a pena olhar e conhecer nouros apontamentos sobre o comportamento do riso. Só para justificar um pouco o que acabo de dizer: algumas longas páginas depois da que aqui me servi, diz ele: “Nunca o vi [a Ramalho Ortigão] dar uma gargalhada; às vezes dá uma boa e sã risada, e raras vezes o vejo sem um sorriso”. (1, p. 178) Não se fica com a ideia de perceber um pouco melhor as diferenças comportamentais ligadas às gargalhadas, às risadas e aos sorrisos?

Palavras-chave: riso, crítica social, crítica política, intervenção social, intervenção política
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(1) A. Campos Matos, Eça de Queiroz. Correspondência. Vol. I. Lisboa, Caminho, 2008.

domingo, 24 de julho de 2016

FALAR E ESCREVER, DE SI E PARA OS OUTROS É preciso saber palavras caras para escrever bem? 01.

FALAR E ESCREVER, DE SI E PARA OS OUTROS
É preciso saber palavras caras para escrever bem? 01.
«só os termos simples, usuais, banais, correspondendo às coisas, ao sentimento, à modalidade simples, é que não envelhecem. O homem mentalmente pensa em resumo, e com simplicidade; nos termos mais banais e usuais: termos complicados, são já um esforço de literatura: — e quanto menos literatura se puser numa obra de arte, mais ela durará, por isso mesmo, que a linguagem literária envelhece e só a humana perdura.» (Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes (Memórias e Notas), Edição Crítica das Obras de Eça de Queiroz. Lisboa, IN-CM, 2014, p. 348)
Saavedra Machado, Eça de Queiroz, In Memoriam,
2,ª ed., Coimbra, Atlântida, 1947
O livro "Doze segredos da Língua Portuguesa, a nossa língua como nunca a pensou ver" é muito interessante. Ao nono segredo, o autor do livro, Marco Neves, titula claramente: O português não está a ir desta para melhor. No que escreve abala a "certeza", adquirida por velhos processos de construção de ideias estereotipadas e preconceituosas, de que a Língua Portuguesa vai de mal a pior. Podemos todos estar descansados:a língua portuguesa está bem e recomenda-se.
Eu entendo o que vai na cabeça das pessoas. Ora, também eu fico às vezes à beira de perder a paciência com os meus alunos que insistem comigo que não percebem as minhas dúvidas, é que, segundo eles, não é complicado eu "ver aquela cena" que eles imaginam estar a pôr ali mesmo à frente dos meus olhos; que não insista eu qque eles entendam porque eles "não fazem a mínima"; que me cumprimentam com o brevíssimo «'tá tudo?...»; e as abreviaturas mas mensagens de texto nos telemóveis pedem quase manual de decifração. Também, é verdade, era exasperante, e agora tornou-se corriqueiro, nas aulas, a bem batida pergunta, «Temos de escrever isso?...»
Nunca se escreveu tanto como agora... Qual é, então, mais inimigo da expressão da língua - é a falta de vocabulário, é a preguiça de escrever, ou é a pressa de comunicar? Lembro-me que quando me apresentei, no Instituto Superior Técnico, ao Professor acompanhante da minha tese de mestrado, ele logo me avisou: «Não leio email com mais de 3 ou 4 linhas, só de ver que são mais fico logo sem vontade de as ler, por isso, veja como me escreve. É que não tenho tempo para mais.»
Não ter tempo?... Há poucos dias, Jorge Barros, o notável mestre da Fotografia das coisas, dos locais e das pessoas, alterou a hora do encontro que tinha marcado comigo, o nosso primeiro encontro. Antecipou-o em meia hora. Logo pensei que a sua vida era uma azáfama, que eu estaria a importuná-lo; era por respeito por mim que antecipava a conversa em vez de a cancelar. Nada disso!, constatei que era apenas para poder estar um pouco mais comigo, para termos mais tempo para conversar!
Será que a escrita vem da fala?, e a fala vem do que se troca no encontro pessoal - sobretudo no que não marca logo à partida a hora de acabar?


Palavras-chave: vocabulário, dicionário, escrita, escrita, leitura, arte, literatura, língua
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sábado, 16 de julho de 2016

TORNAR-SE PESSOA. O papel da mãe na determinação do comportamento do bebé. 01.

TORNAR-SE PESSOA.
O papel da mãe na determinação do comportamento do bebé. 01.
«A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães. O homem é
Eça de Queiroz e a filha Maria em Torquay
"profundamente filho da mulher", disse Michelet. Sobretudo pela educação. Na criança, como num mármore branco, a mãe grava; - mais tarde os livros, os costumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podem apagar-se, não se alteram as palavras gravadas. A educação dos primeiros anos, a mais dominante e a que mais penetra, é feita pela mãe: os grandes princípios, religião, amor do trabalho, amor do dever, obediência, honestidade, bondade, é ela que lhos deposita na alma. O pai, homem de trabalho e de actividade exterior, mais longe do filho, impõe-lhe menos a sua feição; é menos camarada e menos confidente. A criança está assim entre as mãos da mãe como uma matéria transformável de que se pode fazer - um herói ou um pulha.

Diz-me a mãe que tiveste - dir-te-ei o destino que terás.
A acção de uma geração é a expansão pública do temperamento das mães.» (Eça de Queiroz, Obras de Eça de Queiroz, vol. XV, Uma Campanha Alegre, Edição do Centenário, Porto, Lello & Irmão, 1948, p. 413)
A. Campos Matos, num artigo publicado na Revista Portuguesa de Psicanálise, n.º 32[1]: Janeiro-Junho de 2012, pp. 41-52], e republicado em Eça de Queiroz, Silêncios, Sombras e Ocultações, também em  2012, pelas Edições Colibri, afirma nunca ter visto comentado «Na criança, como num mármore branco, a mãe grava; - mais tarde os livros, os costumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podem apagar-se, não se alteram as palavras gravadas.» (E. Colobri, p. 295) Aconselhado pela prudência, ainda não serei eu quem abrirá os comentários desejados ou em falta.
Na verdade, para um psicólogo, aluno entusiasta do dr. Pedro Luzes, notável psicanalista e profundo estudioso de Eça de Queiroz, a tentação de ousadas interpretações psicológicas que tirem partido da bem conhecida rejeição a que a mãe do escritor logo o votou, mesmo antes que o bebé tivesse nascido, é bem grande; mas resisto.
Eça tem 26 anos quando assim escreve. Conhecerá o casamento e a paternidade apenas 15 anos depois. Não deixa de ser impressionante que ele, tão novo, pensasse de forma, no meu entender, tão clarividente; clarividente e correcta!
Provocando a posição do determinismo da influência materna, absoluto e inabalável, que se pode deduzir das palavras do jovem Eça, quase me apetece verbalizar a presunçosa interrogação de que o mármore, em gastando-se - sim, o mármore também se gasta! -, o que fica?, o que deixa na criança feita homem? Não, não me interessa ir por aqui.
A frase de Michelet, «Je me sens profondémemt fils de la femme», reeditada em 1861, na obra "Le Pretre, la Femme et la Famille", é a afirmação de um homem maduro (Michelet nasceu em 1798), e Eça terá pensado, assim mesmo, "profundamente", sobre ela.
Herói ou pulha. Nos anos 20 do século XX, nos Estados Unidos da América, John Waston (o "pai" da Psicologia Behaviorista, que tão poderosa ainda é nos países anglo-saxónicos), mesmo que numa forma de pensar bastante diferente, afirma, também convictamente, o poder de, pela educação, fazer das crianças polícias ou ladrões, pelo simples arbítrio de quem educa. (1)
Repito, recomenda-me a prudência que fique por aqui, salientando apenas a importância tremenda que tem, no desenvolvimento infantil, os cuidados maternos, a educação e a influência social que a criança recebe da mãe - a mãe biológica ou a que dela faz a vez.
Prossiga o interminável confronto Natureza versus Cultura, entre Inato versus Adquirido.


Palavras-chave: pedagogia, mãe, pai, educação, relação mãe-filho, socialização, natureza versus cultura, inato versus adquirido
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(1) «Give me a dozen healthy infants, well-formed, and my own specified world to bring them up in and I’ll guarantee to take any one at random and train him to become any type of specialist I might select — doctor, lawyer, artist, merchant-chief and, yes, even beggar-man and thief, regardless of his talents, penchants, tendencies, abilities, vocations, and race of his ancestors.» John Watson, Behaviorism, New York, People's Institut, 1924, p. 82.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A MENTE E O QUE A MOVE - QUERER É MESMO PODER? O papel determinante da curiosidade. 01.

A MENTE E O QUE A MOVE - QUERER É MESMO PODER?
O papel determinante da curiosidade. 01.
«A curiosidade, instinto de complexidade infinita, leva por um lado a escutar às portas e por outro a descobrir a América:- mas estes dois impulsos, tão diferentes em dignidade e resultados, brotam ambos dum fundo intrinsecamente precioso, a actividade do Espírito.» (Eça de Queiroz, Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, Textos de Imprensa V (da Revista Moderna), Eduardo Prado. Lisboa, INCM, 200513, p. 120)
A crónica Eduardo Prado foi publicada em 1898, em fase de sofrimento já especialmente crónico do escritor.
A curiosidade foi a irresistível sede de saber que, com a simbólica tentação de Eva, fez a Humanidade inteira perder o Paraíso.
A curiosidade foi a fascinante força infantil (Eça tem razão, é uma coisa instintiva) que prendeu o psicólogo suíço Jean Piaget ao labor que lhe permitiu construir, tijolo a tijolo, um tremendo edifício de conhecimento sobre o desenvolvimento da mente infantil e da inteligência humana. A curiosidade desencadeia a acção, e da acção nascem as obras humanas. A curiosidade não é característica da espécie humana; mas - e mais uma vez Eça tem razão - é no ser humano que ela ganha "complexidade infinita".
Mais dois pequenos excertos da mesma crónica, e não preciso de comentar mais nada...
«O espírito porém que incita o homem a deixar a quietação do banco do seu jardim, a trepar a um muro escorregadio, a espreitar o jardim vizinho, possui já uma estimável força de vivacidade indagadora: - e a tendência que o moveu é essencialmente idêntica à tendência que, noutro tempo, levara outro homem a subir às rochas de Sagres, para contemplar, com sublime ansiedade, as neblinas atlânticas. Ambos são dois espíritos muito activos, almejando por conhecer o mundo e a vida que se estendem para além do seu horizonte e do seu muro.»
 O outro excerto:
«Mas ambos eles, o criador de civilização e o criador de escândalo, obedeceram à mesma energia íntima de iniciativa descobridora. São dois espíritos governados pela curiosidade, a vil curiosidade, como lhe chama Byron, com romântica ignorância... E de resto, sem essa qualidade vil, nunca o primitivo Adão teria emergido da caverna primitiva, e todos nós, mesmo o curiosíssimo Byron, permaneceríamos, através dos tempos, solitários e horrendos trogloditas.»
Afinal, não resisto a mais um pequeno comentário: será possível conter a curiosidade nefasta, "vil", "escandalosa"? Penso que sim - pela acção autorregulada da tentativa-erro; e pelo papel sábio desempenhado pela educação - em casa, na escola, nas comunidades de pertença.


Palavras-chave: curiosidade, pedagogia, motivação, ambição, educação, regulação dos comportamentos, autorregulação
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